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saudade junho 1, 2008

Posted by carolina oms in Das curvas que as palavras fazem.
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ou

verbo que se conjuga em todos os tempos. saudade é tempo passado, é presente e é futuro. Mas verbo regular, tão regular que conjuga sempre igual, independente de quem sente (1ª, 2ª ou 3ª pessoa)

*suspeito que a saudade que eu, você ou o Miguilim sentimos é a mesma

saudade também se sente de todos os modos: no subjuntivo – a possibilidade, o desejo, o tomara…

saudade no indicativo, que é fato! real, concreto, palpável.

saudade no imperativo, que não é escolha, é ordem.

mas saudade é verbo intransitivo, não precisa de de complemento, de objeto. chegando ao cúmulo de apagar o sujeito

*já ouvi falar de muita saudade por aí deixando o sujeito indeterminado. saudade engole.

saudade já nasce junto com a gente.

Uma outra curva maio 8, 2008

Posted by carolina oms in Das curvas que as palavras fazem.
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Alumbramento ou:

ou

da arte de ganhar mil faces num só instante; da capacidade de marejar os olhos; um pequeno instante que se dilata, ou infinistante;

deslumbrar, transbordar, maravilhar, inspirar, aumentar para o total

entre a tristeza da nostalgia e a beleza do descobrimento, precisamente.

Um par de olhos atraentes, a poesia da vida, ou a própria palavra são capazes de alumbrar.

dos poetas verdadeiros:

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu

Foi o meu primeiro alumbramento

Manuel Bandeira

as pessoas e os grilos dormiam.

restaram ela e uma mão macia, que soltava pra apontar estrelas e tornava a envolver.

soltou ligeiro pra apontar uma estrela caída:

                                                                               era um vaga-lume

carolina

Das curvas que os balões fazem maio 5, 2008

Posted by carolina oms in Das curvas que as palavras fazem, Novelos, teias, tecidos e alguns textos.
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Sobressalto: ou pow!

sempre desejou o céu. nunca foi criança de soltar o balão colorido que o pai comprou. segurava firme no aguardo, podia acontecer de uma reviravolta do vento, ou do ar lá dentro, subir ele e o balão.
sem viração nem nada contentava em assistir a possibilidade da fuga. os olhos pra cima, desejosos, a mão fazendo festinha na linha, fingindo soltar, escorregando os dedos… feito balão fosse gente. gente não. Criança. sorrindo largo, enquanto dá a mão e faz querer fugir.
quando o balão murchava brincava de fingir que não viu. por dentro um orgulhinho de ser gente se ria invejoso. uma nostalgia de ser tudo se encolhia, entendida do mundo.

Depois, não quis cair de pára-quedas, não quis andar de avião. queria vento forte e brisa leva, sopro de vela, de catavento e de dente-de-leão. descobriu. não havia precisão de soltar o balão: grande era pairar entre o céu e o chão, sentou no balanço, em cheio era o azul do céu misturar nos olhos e nos cabelos com o marrom da terra. Transbordamento era saber que o mundo girava suspenso no nada.

Depois. Desejou o Céu. Encontrou Deus. Tudo assim, com letra maíuscula de grande e de bonito, alta pra encostar no céu da linha. Contou do Reino e contou dos Céus, pra quem andava de roda bem presa numa estrada empoeirada, construiu paróquia na terra e alçou balão no ar. contou pro céu das virações da terra. gritou pros homens que é do céu que a gente sente saudade.

desejou o céu e o chão, encontrou o mar.

agridoce janeiro 21, 2008

Posted by carolina oms in Das curvas que as palavras fazem.
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dói tanto que mais meia gota de dor e chegava a ser felicidade.

é que felicidade dói também

palavra besta que delimita não sei o quê.

como uma abraço apertado

saudoso, no nada

pretensiosa, quer pôr fim na infiniteza 

  -é mistura besta de infinito e de beleza-

fingindo cercar, cercando,

 

palavra assim não pode deixar de doer.

                             nem de ser gostoso.

felicidade é palavra agridoce.

marginal setembro 25, 2007

Posted by aliceeeeh in Das curvas que as palavras fazem.
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Páginas muito cheias têm uma mania horrível de chegar antes da gente.

Lotam inteirinhas, e nem dá pra ver quando foi isso. Só vemos as páginas todas sujas de coisas dos outros. A gente chega no mundo e já ta tudo pronto e esticado em linhas. Ai vem você, com suas letrinhas atrasadas, tentando se enfiar no meio das outras. Tenta com perninhas mais curtas, espreme a palavra, amassando tudo até virar careta. Mas ninguém, nenhum dos que já estão se move.

Os já estados são cegos, surdos, e pretos. Não deixarão de estar nem um pouquinho pra você esticar a perna do p ou encher bastante o pulmão do O.

Tentei, uma vez, me esconder entre as linhas. Fiz até ironia bonita, mas, quase não vista, fui desaparecendo daquela morte transparente que não faz falta. Sei que isso, de completar as entrelinhas, também tentou outro, e que sabe até um outro do outro. Mas, de verdade, os que vi nunca mais vi depois.

O jeito é ir se pendurando nas bordas, se acomodar nos cantinhos em cima dos números das páginas. E embaixo também. Deitar bem fininho no rodapé e prender o cabelo, pras pontas não ficarem de fora quando fecharem o livro.

Também vale se encostar pelos cantos, rabiscar na margem nossos rabiscos todos tortos, pintando pedacinhos de papel em branco. Marginalizando nossas palavrinhas.

alice

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