sobre todas as cores Janeiro 19, 2009
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tem quem não goste de cinza, quem considere cor somente as variações alegres do céu.
feito cinza não fosse cor, só poluição - estado momentâneo produzido por um estado permanente de estupidez humana.
coisa de recém nascido vestido com rosa pra menina e azul pra menino. só enxerga o cinza quem tem os olhos de fora ardidos de fuligem e os de dentro vermelhos de lágrima.
vertida pra dentro de quando a gente descobre que gente também pode ser cinza, embrulhados nos trapos, embalados por essa cor disforme que guarda sozinha o velho frio da terra da garoa.
Ainda assim, é cor, nos seus múltiplos tons, no seu sabor pleno de amargo.na sua vivacidade descorada de prédios ou descascada de felicidade. que não nos deixa esquecer que também o amargo pode caber aos lábios.
o cinza vai sempre muito bem com o vermelho.
Das curvas que os balões fazem Maio 5, 2008
Posted by carolina oms in Das curvas que as palavras fazem, Novelos, teias, tecidos e alguns textos.Tags: balões, padre
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Sobressalto: ou pow!
sempre desejou o céu. nunca foi criança de soltar o balão colorido que o pai comprou. segurava firme no aguardo, podia acontecer de uma reviravolta do vento, ou do ar lá dentro, subir ele e o balão.
sem viração nem nada contentava em assistir a possibilidade da fuga. os olhos pra cima, desejosos, a mão fazendo festinha na linha, fingindo soltar, escorregando os dedos… feito balão fosse gente. gente não. Criança. sorrindo largo, enquanto dá a mão e faz querer fugir.
quando o balão murchava brincava de fingir que não viu. por dentro um orgulhinho de ser gente se ria invejoso. uma nostalgia de ser tudo se encolhia, entendida do mundo.
Depois, não quis cair de pára-quedas, não quis andar de avião. queria vento forte e brisa leva, sopro de vela, de catavento e de dente-de-leão. descobriu. não havia precisão de soltar o balão: grande era pairar entre o céu e o chão, sentou no balanço, em cheio era o azul do céu misturar nos olhos e nos cabelos com o marrom da terra. Transbordamento era saber que o mundo girava suspenso no nada.
Depois. Desejou o Céu. Encontrou Deus. Tudo assim, com letra maÃuscula de grande e de bonito, alta pra encostar no céu da linha. Contou do Reino e contou dos Céus, pra quem andava de roda bem presa numa estrada empoeirada, construiu paróquia na terra e alçou balão no ar. contou pro céu das virações da terra. gritou pros homens que é do céu que a gente sente saudade.
desejou o céu e o chão, encontrou o mar.
alma, a célula-ponto Dezembro 14, 2007
Posted by carolina oms in Novelos, teias, tecidos e alguns textos.Tags: buracos, fome, mitocôndrias
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sobressalto ou Movimento brusco, ocasionado por uma sensação súbita ou violenta.
a alma é uma dessas células que tem, ou tinha, vida própria. antes do ser humano ser ser humano a alma, que também não devia ser alma, vivia toda auto-suficiente almelando por aÃ. ela era ponto de tamanho indefinÃvel definido por uma linha invisÃvel, até pra ela mesma, não pulsava, nem dilatava, não sentia falta, não tinha buraco, não era, nem estava.
Aà o Darwin deu de inventar a evolução e o ser humano deu de se apropriar das coisas, numa dessas tomou a mitocôndria, umas bactérias que zanzam até hoje pelo intestino, e instalou a “ainda-não-alma” em um ponto ainda não explorado entre o estômago e o nó da garganta.
“segundo estudos biológicos e recentes o nó não é na garganta , mas sim da garganta, pois é um ponto especÃfico localizado entre a angústia e uma esperancinha.”
Deu merda. o estômago até hoje se sente todo Palestino, fala que já tem uso-capião do terreno e que a alma tá causando! ocupando muito espaço, vez ou outra faz uma intifada e o ser humano ou emagrece ou engorda, de qualquer maneira vai parar no médico
ou na igreja.
as mais recentes teorias da Almunicação afirmam que se alma ta abusando ela incha até atormentar o nó da garganta e apertar o estômago, que perde a fome ou gorfa!
se a alma está meio desacreditada ela quase volta que volta a ser uma célula-ponto, mas dessa vez ela sente saudade
não se sabe se de ser célula-ponto ou de ser inchada, os estudiosos divergem nesse ponto. ou ainda uma nostalgia de ser completa, coisa que não se sabe se alguma vez aconteceu, mas que nem por isso deixa de ser nostalgia.
o estômago que é muito influenciável mas é burrinho identifica saudade como falta (imagino que o estomago seja inglês e na tradução a informação se perde) e a falta como falta de comida –pro estomago tudo ou é comida ou não é comida – e tá feita a fome.
Segundo os mesmos babacas estudiosos da alma, os sintomas divergem mas a causa é a mesma. Aparentemente, desde de que a alma se instalou no ser humano manteve suas caracterÃsticas, as tais indefinÃveis e invisÃveis, mas na passagem do estágio não-ser para o ser – aquele no qual Shakespeare tanto se embolou - o choque deixou na pobre alma uns certos buracos. A hipótese mais aceita é a de que são esses buracos que provocam as sucessivas contrações e dilatações da alma.
São os mesmos malditos buracos que fazem com que um ser humano procure o outro, que ele queira dormir de conchinha e que eu escreva esse texto.
Ps. Por que caralho a alma e o homem se juntaram é que é o mistério, mas os especialistas não se centram muito nessa pergunta, até porque, especialista que é especialista não fala palavrão.
dentro Dezembro 13, 2007
Posted by carolina oms in Novelos, teias, tecidos e alguns textos.Tags: esboço, lábios, tinta, uns
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sobressalto: ou apaixonar-se
por dentro é vermelho.
quando se respira entram umas outras cores, principalmente o cinza,
 cinza fuligem, cinza cinzento
amoado, mal- humorado de
 cidade. olhou pro lado e viu: o mundo tava recheado de gente feia e palavra bonita
mas se se enfiar num buraco. o buraco vai ser preto. e no buraco não tem nem gente nem palavra
se tem o cinza tem sempre a chance de amarelar um sol se tem gente pode acontecer de corarem uns lábios  pode pintar deles escreverem os lábiosnosmeus sair uma palavra que te estraña acontecer de ficarem entreabertos ensaiando cor ou palavra acontecer dos    lábios   hesitantes   .eosdedosávidos meterem a mão na tinta, ou nas palavras, ou em qualquer outro lugar que lhes pareça apetitoso e fazerem um esboço de felicidade
surdo Outubro 10, 2007
Posted by aliceeeeh in Novelos, teias, tecidos e alguns textos.Tags: culpa, poesia, surdo
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 sobressalto: engasgo.
pessoa que fala pra dentro e escuta só o escuro. que usa como tempo só a vida, contando o tictac pela coceirinha que o coração faz quando bate no peito. aquelas que sabem o quanto a música dói, só por sentir o quanto o choro soluçado da mesa faz tremer sua madeira. ser humano que estende a mão pra pedir ajuda, para a ajudar, para rir. que usa a mão pra cobrir os olhos do sol, para perguntar onde é o banheiro, para contar piada, e para coçar um pouco da tristeza de quem ouve os gritos e engole a culpa.
alice
Dos pedidos desesperados Outubro 10, 2007
Posted by carolina oms in Novelos, teias, tecidos e alguns textos.Tags: desespero, mão, pedido, poesia
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 sobressalto: ou deslumbramento
o mundo tá cheio, cheio de pedidos desesperados, cheio de olhos cheios de lágrimas, cheios.
o mundo é grande mas tá todo sozinho no mundo, a gente (sim, nós, seres humanos) temos um bilhão e outros bilhões por perto, mas a gente é tudo pequenininho…
e surdo. o mundo tá cheio de Pelos amores de Deus, de Por favores, de Deus te abençoes, de Deus lhe de em dobro. deus?
 o mundo tá cheio de mãos nas grades, mãos estendidas, mãos calejadas. mãos.
Carolina
sobrou você Outubro 1, 2007
Posted by aliceeeeh in Novelos, teias, tecidos e alguns textos, Uncategorized.2 comments
o tempo passa e parece que não importa tanto assim, mais.
sem contar um soluço aguado que a garganta tem que segurar. é tanto tempo passando ao mesmo tempo que entope as lágrimas. não dá tempo de guardar toda a angústia numa caixinha. vai transbordando, até esvaziar tudo pra dentro de mim.
mas ontem tampei a tempo. fechei um olho, e depois o outro, e fui. fechei.
é que tristeza antiga me dá ânsia. é tristeza seca, incrustada nas coisas. é triste em cheiro em macio em pele e até naquele pêlo que você perdeu aqui em casa.nunca procurei. só abri os olhos, assim de impulso, como quem assusta de ter um fiozinho arrancado de uma vez, e fiquei olhando o tempo que passa. passando de tanto esperar, se desesperando de, de repente, não querer mais.
E hoje você volta.
alice
há um ano atrás, certinho.
alice que nunca muda.
alice que ainda tem saudades das saudades de quando nem alice tinha
Tata
Amontoado Setembro 27, 2007
Posted by carolina oms in Novelos, teias, tecidos e alguns textos.Tags: engole, poesia, prosa, saudade
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Sobressalto: infinistante entre uma e outra batida do coração num momento de aflição;
era uma vez. no tempo que os amores não eram em vão, uma menina que amava. e amava de um jeito que ela achava que ninguém nunca tinha amado antes e que não dava mais pra esquecer.
Mas de quem ela gostava não gostava dela e quando ela queria estar perto, quando queria tocar, sentir cheirar, ficava só no querer.
Os dias passavam e esse amor só fazia crescer, mas crescia sem ter pra onde ir, ia amontoando no peito dela. bem guardadinho.
Só que amor é sujeito abusado, e saiu ocupando todos os cantos que viu, tomou conta da cabeça, dos pés. a ponta do mindinho. o buraco do umbigo.
Eis que! um dia, não aguentando mais de peito explodindo ela cavou um buraco, fundo fundo e gritou todo o amor lá pra dentro e fechou! Mas ficava sempre um pouquinho da amor sobrando, à s vezes uns restinhos de amor se agarravam à ponta do cabelo, ficava uma sujeirinha de amor no umbigo… é que sempre faltava fôlego pra jogar toodo o amor lá dentro.
E sabe como é, amor, se reproduz que nem ratinho de laboratório, o amor teimava, insistia, aumentava… a menina foi crescendo e o amor foi crescendo junto. e mais. Toda vez que o peito dela apertava invadido, ela corria pro buraco!
Mas o amor que estava dentro do buraco foi amontoando também, tão esprimido que já não cabia. Há tanto tempo preso foi virando outra coisa. Então um dia, quando ela se preparava pra jogar mais amor no buraco – bem no momento que ela tomava fôlego- essa outra coisa chispou pra dentro dela e ocupou tanto espaço, mas tanto espaço que a mulher desapareceu, ficou só o sentimento.
Contam que foi aà que nasceu a saudade
Carolina
Das páginas em branco Setembro 23, 2007
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 Sobressalto: etimologicamente falando, indo à raiz da palavra e viajando a la Vandson: é o salto a quadrado
eu tenho medo de páginas em branco, eu tenho medo de páginas e bibliotecas cheias.
Eu gosto de reticências, inevitavelmente, tá cheio de reticências dentro de mim.
Tem um monte de livro na estante, olhando, e tem um monte de letra por aÃ. As letras ficam por aà pululando, no espaço de uma vértebra e outra.
Às vezes dão dor nas costas, quando acumulam. Dá pra ignorar, sempre dá, só que, no aperto elas podem acabar virando palavra, uma dessas palavras bonitas e doloridas. e vão doer no estômago.
Por motivos que os professores de Literatura não explicam as palavras, as letras e os pontos de interrogação e os pontos de exclamação e os pontos, muitos pontos, talvez as vÃrgulas. eles todos se ajeitam no corpo com essa coisa causadora de siricuticos que é a arte.
Arte é aquilo é aquilo que lido, visto ou ouvido ou tudo ao mesmo tempo, aumenta e enche os interstÃcios da alma. Um Ãndio localizado em um ponto eqüidistante entre o Atlântico e o PacÃfico e na música de Caetano Veloso me garantiu que nesses buracos da alma que vão parar: a palavra, seu palavrão e suas palavrinhas  Â
Carolina
Gira Setembro 23, 2007
Posted by carolina oms in Novelos, teias, tecidos e alguns textos.add a comment
Sobressalto: momento que a velocidade do corpo é nula, milésimos antes do corpo cair- ou como diriam as crinças: o momento de frio na barriga quando o balanço desce.Â
caso você não tenha entendido, uma clara referência ao caleidoscópio. Mas também pode ser muitas coisas:Imagina:pode ser um carrossel- desses com música que ficam no imaginário de todo mundo que já foi criança e Gira! pode ser um pedido desesperado com direito a ponto de exclamação e tudo pra que o tiozinho que controle a velocidade coloque mais emoção naquela joça!Ou…pode ser o momento que as cordas do balanço a destrançar e você olha pra cima sem saber se vai dar risada ou vomitar.
Carolina